sexta-feira, 28 de maio de 2010

o método žižek e a lógica do vômito

sempre me perguntam por que eu não escrevo muito por aqui. não sei se por que gostam do que eu escrevo ou por que acham que eu devo reservar meus comentários à esse espaço esquecido. enfim, eu juro que tento, mas tenho um problema sério com a escrita.

por exemplo: escrevi a introdução acima e fui até a cozinha pegar um chá gelado e fazer um sanduíche. nesse intervalo eu desenvolvi o post inteiro. literalmente escrevi o texto todo na minha cabeça. ok, sanduíche pronto, chá servido, volto pra cá e... some tudo.

eu tenho essa coisa com o movimento. parece que movimento é combustível pro meu cérebro. é impressionante a quantidade de idéias, reflexões e análises que surgem, por exemplo, numa caminhada até o supermercado. de certa forma, me coloco num piloto-semi-automático e deixo a cabeça livre pra voar. o problema é lembrar disso tudo depois. não exatamente lembrar -lembrar, eu lembro- mas verbalizar de uma maneira coerente, sentar aqui e organizar o pensamento.

o problema é que existe uma questão filosófica por trás disso.

alguém, uns tempos atrás, comentou aqui que gostava do meu jeito de escrever, "super direto, sem parafernalhas estílisticas ou estruturas pré-prontas quaisquer, sendo ainda assim íntegro e principalmente super comunicativo". e concluiu dizendo "acho que tu não deves pensar muito antes de escrever, e fica essa sensação de 'conclusão' a cada novo parágrafo".

de fato, isso acontece. e não só com a escrita.

thelonious monk

no passado (e, na verdade, até hoje) os grupos de jazz gravavam ao vivo, por que a essência do jazz é a improvisação, é tocar o momento. concordo plenamente com thelonious monk quando ele dizia que a primeira vez que se toca uma música é a melhor. é quando todos os sentimentos e idéias surgem da forma mais pura, mais instintiva. concordo tanto que eu tenho (ou tinha, não sei exatamente) um projetinho solo, chamado d., que é(ra) basicamente esse conceito levado ao pé da letra. eu literalmente sentava na frente do computador, compunha, desenvolvia, arranjava e gravava tudo, de uma só vez, de primeira, sem parar, e nunca mais tocava na canção depois. ficava como tinha ficado, mesmo com erros e imperfeições, pra que ficasse registrado o meu estado de espírito naquele momento. se eu fosse mexer ou terminar de gravar depois, eu não estaria mais naquele exato estado de espírito e a "pureza" da canção se perderia (aliás, entre outras coisas, essa é uma das razões pelo atraso do disco da minha banda pãnq).

e isso acaba acontecendo na escrita também. eu tenho meus devaneios e, quando sento aqui pra transcrevê-los, sinto que eu já tô racionalizando demais as coisas, perdendo a paixão, a intensidade da coisa. os posts que eu publiquei aqui, todos foram feitos assim: sentei na frente do computador e literalmente vomitei o que tinha na cabeça sem nenhuma preocupação com estrutura, coerência, etc.

então, escrever aqui se torna virtualmente impossível, se não for dentro dessa "lógica do vômito".


mas há luz no fim do túnel!

žižek: "o amor é mau" @ trecho do doc "žižek".

uns tempos atrás eu assisti um documentário sobre o žižek em que ele diz que tem um ritual muito complicado pra escrever. acho que pra ele, assim como pra mim, a idéia de escrever, a palavra escrever, pressupõe uma certa seriedade. pra ele, é psicológicamente impossível sentar e escrever, então, ele diz que se engana. pra isso ele usa uma estratégia muito simples: ele vai jogando idéias, mas de uma maneira relativamente detalhada, com uma linha de pensamento já escrita em frases por completar. e assim ele vai dizendo a sí mesmo que ainda não tá escrevendo nada, só tá colocando idéias, até um certo ponto em que já tá tudo ali, é só editar e publicar. ou seja, o escrever desaparece. žižek é o cara! haha

mas então, pensando sobre isso, decidir adaptar o método do žižek: vou jogar idéias nos rascunhos pra esquecer e, depois, voltar, pensar sobre e desenvolver dentro da minha "lógica do vômito". assim eu espero acabar com essa história de mais da metade de tudo que eu escrevo acabar ficando esquecido nos rascunhos desse blog falido. :)

e pra fechar, meu brother monk:

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